Crônica: A arte de ser bem educado

16 jun

Denilson era cobrador de ônibus. Todos os dias deixava sua casa no extremo da zona oeste de São Paulo e rumava para a garagem, onde, religiosamente, chegava às 15h e 10 minutos depois já estava nas ruas da cidade para suas 8 horas de trabalho. Às 23h, depois de mais um dia, voltava para casa com a sensação de dever cumprido.

Assim como todos os cobradores, Denilson fazia seu trabalho com esmero. Sempre que solicitado, lá estava ele para passar o troco. No entanto, duas particularidades chamava a atenção em Denilson: seu bom humor e sua educação.

Sempre disposto e alegre, o educado cobrador fazia questão de cumprimentar cada passageiro que entrava no coletivo com um sonoro boa noite. Fosse o estudante cansado ou a senhora atrasada, lá estava Denilson com seu sorriso largo.

Maitê era auxiliar de farmácia. Totalmente, desmotivada em seu trabalho a garota havia saído do serviço e no retorno para casa acabara cruzando o caminho de Denilson.

O bom humor de Denilson logo caiu como a mais grave das ofensas para Maitê. Como aquele cara distribuía sorrisos e gentilezas ao mundo, se a vida de pessoas tão próximas estava prestes a desmoronar?

Ao passar pela catraca, Maitê ouviu o sonoro e constante boa noite de Denilson, mas sua rabugice a impediu de responder e o pobre cobrador ficou no vácuo, como diz a gíria usada pelos jovens atualmente.

Aquele descaso bateu como um desaforo para Denilson que logo retrucou: “além de mal-humorada, mal-educada”.

A frase foi um estopim para a discussão. Amarga com a vida, Maitê disse impropérios impublicáveis neste espaço e acabou com a raça de Denilson.

Na primeira cadeira do ônibus, D. Dirce uma senhora bem sábia, observava a tudo.

Após o fim do monólogo de xingamentos contra Denilson, Maitê sentou-se e acreditou ter colocado um ponto final na história.

Então D. Dirce passou para o lado de trás do ônibus e ficou bem ao lado de Maitê.

Com a voz calma que toda avó carrega disse: Minha filha, nestes muitos anos que vivi nunca vi um rapaz exercer sua profissão com tanto empenho e carinho. Fiquei surpresa com tamanha educação e bom humor. Não estamos acostumados a pessoas alegres e divertidas em nosso caminho. Acho que ele merece um pedido de desculpas.

Ao ouvir estas palavras, Maitê percebeu que descontara toda sua ira em Denilson e que ele não era o culpado de suas mazelas. Envergonhada, decidiu se desculpar. Após falar com o cobrador, a jovem percebeu que nem tudo na vida era rabugice e que ainda hoje há pessoas que mesmo com todos os problemas ainda podem ser bem educadas e fazem bem seu trabalho.

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