Tag Archives: Crônica

Ponto final

11 fev

Escolhida pelo professor Renato Modernell como a melhor crônica da disciplina de Jornalismo Cultural, o texto escrito pela pós-graduanda Paula Silva merece ser publicado aqui no blog.

Por Paula Silva

Pegar ônibus é uma grande experiência antropológica. Naquela volta para casa, inalando fragrâncias de desodorante “Avanço” e salgadinho de milho, eu esperava apenas ouvir mais uma história entre desconhecidos. Claro, sem participar do diálogo, apenas como um passatempo que encurta a viagem. De política aos últimos capítulos da novela, tudo se ouve na lotação.

Estava de pé, tentando o equilíbrio, com a mochila pesada nas costas e invejando o conforto da pessoa sentada à minha frente. Numa olhada para o fundo do ônibus, levo um susto. Lá está ele: óculos de aro grosso, costeletas e distraído com o fone de ouvido. Havíamos terminado o namoro há mais de três anos. Senti um frio na espinha. Vi meu reflexo no vidro: olheiras, cabelo despenteado e… meu Deus! A pior roupa possível. Não me imaginava assim num reencontro.

No dia em que parecemos sobreviventes de guerra, encontramos com as pessoas que mais queremos impressionar.  Num certo arrebatamento, como quem participa de uma corrida com obstáculos, passei por sacolas pelo chão, pulei uma bengala, desviei das caixas de chiclete do vendedor ambulante e me apertei para passar pelo corredor estreito. Parei ao seu lado. Despretensiosa, ajeitei o cabelo e esperei que ele me reconhecesse.

Após uma breve surpresa, meu ex-namorado iniciou a conversa. Perguntou onde eu estava trabalhando e como andava a minha família. Respondi sem muitos detalhes. Não pude deixar de reparar na aliança dourada, reluzente em sua mão direita. “Estou noivo”.  Dali em diante, eu mudei drasticamente o meu comportamento. Eu precisava falar, afinal a vida estava bem melhor sem ele.

Contei sobre minha viagem à Europa, passando por Paris, Barcelona e Amsterdam. Os estudos iam muito bem, obrigada! Estava finalizando o mestrado em Arte. Meus esforços no trabalho haviam sido recompensados com uma promoção. Só utilizava o transporte público por uma questão ambiental, “eu me tornei muito engajada”, disse a ele. O doutorado eu faria no exterior, estava me decidindo. Também tinha planos de morar fora porque o país estava muito violento, impossível de viver. Retomei o fôlego e dei o sinal. “Poxa, nem perguntei sobre você. Fica para a próxima.” Desci do ônibus e pensei que já estava na hora de tornar tudo isto verdade.

Contos e Crônicas

21 jan

Um dos muitos aprendizados que conquistei no ano de 2013 durante a pós-graduação do curso de Jornalismo Contemporâneo no Mackenzie foi durante a disciplina de Jornalismo Cultural com o professor Renato Modernell.

Sempre gostei de escrever textos que julgava serem crônicas, mas após as aulas com o professor Modernell aprendi que na verdade tratavam-se de contos.

Mas, afinal qual a diferença entre conto e crônica?

O conto se destaca por ser uma narrativa curta e tem poucos personagens. A trama pode acontecer na vida das pessoas, mas não é comum que ocorra a todos.

Já a crônica narra fatos do dia a dia, relatando o cotidiano das pessoas com forte presença da ironia e do sarcasmo.

Agora que esta diferença foi explicada, alterei a categoria do blog e teremos então contos e crônicas. Em breve, publicarei os textos preparados para a aula de Jornalismo Cultural.

Crônica: A arte de ser bem educado

16 jun

Denilson era cobrador de ônibus. Todos os dias deixava sua casa no extremo da zona oeste de São Paulo e rumava para a garagem, onde, religiosamente, chegava às 15h e 10 minutos depois já estava nas ruas da cidade para suas 8 horas de trabalho. Às 23h, depois de mais um dia, voltava para casa com a sensação de dever cumprido.

Assim como todos os cobradores, Denilson fazia seu trabalho com esmero. Sempre que solicitado, lá estava ele para passar o troco. No entanto, duas particularidades chamava a atenção em Denilson: seu bom humor e sua educação.

Sempre disposto e alegre, o educado cobrador fazia questão de cumprimentar cada passageiro que entrava no coletivo com um sonoro boa noite. Fosse o estudante cansado ou a senhora atrasada, lá estava Denilson com seu sorriso largo.

Maitê era auxiliar de farmácia. Totalmente, desmotivada em seu trabalho a garota havia saído do serviço e no retorno para casa acabara cruzando o caminho de Denilson.

O bom humor de Denilson logo caiu como a mais grave das ofensas para Maitê. Como aquele cara distribuía sorrisos e gentilezas ao mundo, se a vida de pessoas tão próximas estava prestes a desmoronar?

Ao passar pela catraca, Maitê ouviu o sonoro e constante boa noite de Denilson, mas sua rabugice a impediu de responder e o pobre cobrador ficou no vácuo, como diz a gíria usada pelos jovens atualmente.

Aquele descaso bateu como um desaforo para Denilson que logo retrucou: “além de mal-humorada, mal-educada”.

A frase foi um estopim para a discussão. Amarga com a vida, Maitê disse impropérios impublicáveis neste espaço e acabou com a raça de Denilson.

Na primeira cadeira do ônibus, D. Dirce uma senhora bem sábia, observava a tudo.

Após o fim do monólogo de xingamentos contra Denilson, Maitê sentou-se e acreditou ter colocado um ponto final na história.

Então D. Dirce passou para o lado de trás do ônibus e ficou bem ao lado de Maitê.

Com a voz calma que toda avó carrega disse: Minha filha, nestes muitos anos que vivi nunca vi um rapaz exercer sua profissão com tanto empenho e carinho. Fiquei surpresa com tamanha educação e bom humor. Não estamos acostumados a pessoas alegres e divertidas em nosso caminho. Acho que ele merece um pedido de desculpas.

Ao ouvir estas palavras, Maitê percebeu que descontara toda sua ira em Denilson e que ele não era o culpado de suas mazelas. Envergonhada, decidiu se desculpar. Após falar com o cobrador, a jovem percebeu que nem tudo na vida era rabugice e que ainda hoje há pessoas que mesmo com todos os problemas ainda podem ser bem educadas e fazem bem seu trabalho.

O salão sobre trilhos

29 abr

Acordar às 5 da manhã e ficar pronta em 15 minutos não era a tarefa mais fácil da vida de Bruna.

Secretária executiva de uma famosa multinacional, a garota sempre era vencida pelo sono profundo – resultado da graduação em secretariado cursado à noite.

Para conciliar estudos, trabalho e – maquiagem – Bruna se valia de uma técnica cada vez mais comum nos meios de transporte sobre trilhos de São Paulo: a automaquiagem instantânea.

Entre uma estação e outra, diversos modelos eram sacados da pequena nécessaire e assim a moça com cara de que havia acabado de acordar transformava-se na mais apresentável das secretárias.

Bastavam apenas poucos minutos para Bruna concluir sua maquiagem e chegar ao trabalho como se estivesse arrumada desde a saída de casa.

Para surpresa e alívio de Marcos, seu superior direto, Bruna sempre comparecia devidamente maquiada – como pedia seu cargo na diretoria. Mal sabia ele que toda aquela produção acabara de ser realizada nos vagões do trem a caminho do trabalho.

As escoltadas

15 abr

Rosa e Mariana nasceram no mesmo dia, com a diferença de dois minutos que fazia de Rosa a primogênita de do senhor Raul e da dona Maricota.

Desde a infância, as irmãs não se separavam e onde estava uma, lá estava a outra como uma dupla de vasos siameses.

Conforme cresciam, as duas adquiriam os mesmos gostos, amigos, confidências, sonhos e projetos.

Assim foi até ingressarem no curso de enfermagem.

Moradoras de um bairro distante do centro da cidade, Rosa e Mariana todos os dias contavam com a escolta de seus pais para voltarem para casa.

Da mesma forma como o sol nasce da aurora, seu Raul e dona Maricota saíam de casa religiosamente às 23 horas e dez minutos depois encontravam as filhas no ponto de ônibus próximo a residência da família.

A cena repetia-se todos os dias. Com chuva ou sem, lá estava o bondoso casal à espera das rebentas.

Uma certa quarta-feira, tudo parecia como antes. Após um dia exaustante no trabalho – Rosa e Mariana faziam estágio na mesma empresa – e duas provas seguidas na faculdade, as gêmeas retornaram para casa.

Ao descerem do ônibus, a surpresa. Após quatro anos ininterruptos, seu Raul e dona Maricota não estavam no local de sempre. Rosa tentou telefonar para casa, mas a ligação caia na caixa postal.

A cada passo rumo em direção a casa, a apreensão de Rosa e Mariana aumentava. Ao chegar, tudo na mais aparente tranquilidade. Apesar da escuridão, as irmãs não desconfiaram de nada e logo entraram.

Ao acenderem a luz, as irmãs se depararam com a cena que explicava a ausência de seus pais.

Lado a lado, seu Raul e dona Maricota dormiam tranquilamente. Vencidos pelo cansaço e traídos pela pilha fraca do despertador, os dois adormeceram e perderam a hora.

A partir daquele momento, seu Raul e dona Maricota resolveram deixar a escolta das filhas a cargo delas mesmo e não mais se preocuparam com a chegada das moças.

O fim de mais um paulistano ilustre

10 abr

Sua função era organizar. Sempre discreto, muitas vezes passava despercebido pelos cantos da cozinha. Seu único desejo era poder deixar tudo na mais perfeita ordem.

Os dias de maior alegria eram quando chegavam as compras. Nestes momentos, sentia-se realizado, pois ao fim do armazenamento dos mantimentos era o seu minuto triunfal.

Ora dobradas, ora apenas comprimidas, as sacolas plásticas eram colocadas dentro do famoso “puxa-saco”. Ali como em ritual da colheita, o pequeno pedaço de pano com elásticos sentia sua fome saciada.

Assim foi por anos a fio, até que uma recomendação na terra dos humanos levou-o à derrocada e a penumbra total.

Com a distribuição de sacolas plásticas proibida em São Paulo e sua substituição por retornáveis, o puxa-saco perdeu sua função de existir. Não há mais o que organizar e muito menos o que se guardar.

Aquele que antes reinava absoluto na cozinha das casas paulistanas, agora agoniza nas paredes à espera do fim certo e inevitável.

Crônica: Solidariedade Paulistana

1 mar

Somos mais de 11 milhões indo e vindo todos os dias. A vida atribulada na metrópole, a correria do dia a dia e o cansaço acumulado ao longo de mais uma jornada pesam no fim da viagem.

Com Clara não era diferente. Saía de casa às 5h30, pois precisava estar no centro da cidade cedo para as aulas de engenharia civil. Clara tinha o sonho de ser funcionária da Petrobras e assim conquistar a tão almejada independência financeira.

Enquanto não realiza seu objetivo, nossa personagem saía da faculdade rumo a central de atendimento na qual era analista de crédito. A carga horária seguia até às 22h, quando finalmente retornava para  casa onde descansaria algumas horas.

Mas o abatimento era grande e o cansaço maior ainda. Não tinha jeito, era sentar no banco do ônibus, fechar os olhos e cair em um sono profundo, mas tão intenso que muitas vezes Clara perdia o ponto para descer.

E assim foram por vários meses, até que Clara decidiu procurar um médico. O diagnóstico: narcolepsia (distúrbio do sono).

Sem condições de mudar a rotina, Clara iniciou o tratamento e tomou uma decisão. Passou a ir no mesmo ônibus todos os dias. Saía as pressas da empresa, para estar pontualmente no local onde o coletivo passava. Assim se perdesse o ponto, teria tempo para retornar para casa em segurança.

Encantado pela beleza da moça e curioso pelo fato dela sempre acordar com ar desesperada, Raul – o cobrador da linha – não titubeou e na primeira oportunidade puxou conversa.

Após entender o por quê de tanto desespero, Raul propôs que Clara senta-se ao seu lado, pois no momento certo lhe avisaria a hora de descer. E assim seguia-se a vida, enquanto Clara dormia o sono dos justos, Raul velava o descanso da ilustre passageira e a cada dia mais se encantava com a bela moça.

Apenas cumprimentavam-se e ela logo caia em seus sonhos, só sendo acordada perto de casa.

Em um dia normal como os outros, com a lua por testemunha, Raul tomou coragem e ao se despedir de Clara lhe entregou um bilhete. Estava escrito “Quer tomar um chopp amanhã? É minha folga.”

Ao ler aquelas poucas palavras, o coração de Clara despertou do sono no qual estava depositado, seus olhos brilharam e aquele foi o primeiro encontro dos muitos que culminaram no casamento de Raul e Clara.

Após a bela cerimônia na igreja da região central, o casal de pombinhos rumou para a tão sonhada noite de núpcias. Ao chegarem ao Hotel Fazenda logo se entusiasmaram e partiram para a consumação do matrimônio. No entanto, Raul pediu um minuto a esposa e foi ao banheiro. Quando voltou a surpresa!

Clara havia encontrado um marido, mas ainda estava tratando a narcolepsia.

Paixão abaixo de zero

10 jan

O texto abaixo sobre coleções foi enviado à revista Continuum, pertencente ao Itaú Cultural. No entanto, como não foi selecionado para a publicação, compartilho com vocês. Boa Leitura!

Era uma paixão longa e inexplicável. Poucos sabiam o motivo que levara Bruna a amar pinguins. Desde pequena a fascinação pelas aves que vivem em regiões frias movia seus pedidos de criança. Certa vez, a mãe teve que comprar um enfeite de mesa maior que a própria Bruna, pois a vontade de ter um pinguim gigante em seu quarto era similar ao desejo de ter o último vídeo-game da estação.

E, os pinguins eram muitos, de todos os tamanhos, formas e materiais imagináveis. Em cima da geladeira, onde geralmente as pessoas colocam os seus, Bruna tinha mais de cinquenta, como não havia mais espaço, os objetos de decoração passaram a ornar o armário, depois a sala, até que se perdessem as contas de quantas aves existiam na casa da “pinguinzete”, apelido carinhoso dado pela amigas de escola.

Mas Bruna, não estava satisfeita, sua necessidade em ter pinguins ainda não fora saciada totalmente e ela queria mais. Buscava completar sua coleção com o único item que lhe parecia impossível: um pinguim vivo. À procura de seu sonho, Bruna rumou à Patagônia, onde iniciaria uma jornada que transformaria seu mundo e a vida das pessoas ao seu redor.

Após uma longa viagem, a “pinguinzete” chegou ao seu destino. A princípio a ideia lhe pareceu fácil, mas as diversas dificuldades pelo caminho mostraram que sua missão seria mais complicada do que havia imaginado.

Depois de percorrer inúmeros institutos de proteção animal, Bruna finalmente encontrou o seu objeto de desejo: Maick foi como batizou o pequeno pinguim capturado com uma fratura na asa. Após preencher a ficha de adoção, Bruna enfim tinha o último exemplar de sua coleção: um pinguim em carne, pena e osso. A volta para casa foi repleta de alegria e contentamento. Afinal, agora a menina estava satisfeita. Todos os seus sonhos haviam sido realizados.

Moradora do bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, a jovem Bruna, na ânsia de encontrar seu ‘pinguim encantando’, havia esquecido de um pequeno detalhe: os termômetros da cidade maravilhosa no mês de janeiro sempre batiam na casa dos 30ºC e Maick fatalmente não resistiria.

Mas, a ‘pinguizete’ não tinha ido à Argentina a passeio. Assim, que desembarcou ligou para o pai e solicitou algo que seria a resolução de seus problemas. Ao entrar em casa, a menina correu para o seu quarto e lá, com a temperatura em 5ºC (graças a um aparelho de ar condicionado especial providenciado pela família) retirou Maick da caixa de viagens.

E ambos passaram a dividir o mesmo espaço. Enquanto as praias cariocas recebiam milhares de banhistas, Bruna passava suas tardes de cachecol e gorro, ao lado de Maick e as centenas de pinguins realocados para o quarto gelado da Lapa.

Profissão: profissional

9 jan

Domingo, dia de família, descanso e papo com os amigos. Mas como nosso espaço não pode ficar parado, publico hoje uma crônica sobre o amor de um profissional ao seu trabalho. Exemplo de vida, todos deveriam seguir esse caminho. Boa Leitura!

O aroma do café tomava conta da rua do Ouvidor. Eram 3h30 da manhã, mas Joana já estava de pé preparando-se para mais uma jornada de trabalho. O dia começava cedo para ela, levantava pontualmente às 3h00, pois tinha que assumir o seu posto na garagem central e seguir rumo ao ponto no primeiro ônibus da linha do Humaitá.

Jô, como fora apelidada particularmente pelos colegas de profissão, vivia só. Havia se casado muito cedo, mas uma forte dor abdominal levara seu marido antes que pudessem ter tido filhos. A dor da perda foi tão grande que ela fechara seu coração e desde então vivia no sobrado da Rua Ouvidor.

Sem parentes próximos, Jô era isolada. Seu único divertimento era ir à pracinha do bairro nos finais de semana de folga para apreciar as crianças brincando, os pássaros cantando e as mães conversando.

A morte do marido, havia influenciado nas despesas de Jô. Até então amparada pelo companheiro, ela não precisava trabalhar, mas o fim trágico a levou a porta da empresa de ônibus da cidade. No início tudo foi muito difícil, pois sua rotina era exaustiva.

Acordava cedo, arrumava-se e saía para o trabalho. Era sempre a primeira a bater o cartão de ponto. Com o tempo, Jô adquiriu uma particularidade: passou a amar o seu posto de serviço. Nunca antes, uma funcionária havia demonstrado tanto amor por sua função.

Jô era trocadora. Para os paulistanos desavisados ocupava o posto de cobradora. Apesar de cobrar a tarifa, Jô deveria sustentar outra profissão em sua carteira de trabalho: prestadora. Não de serviço, mas de atenção. Não no sentido pejorativo da expressão “prestar atenção”, mas no sentido de “assistir”, ou melhor ainda “prestar assistência” a quem quer que fosse.

A senhora que não conseguia se locomover, a mãe com a criança recém-nascida, o portador de necessidades especiais, qualquer que fosse o passageiro, lá estava Jô com seu sorriso no rostro e a vontade incontrolável de ajudar.

Exemplo profissional a ser seguido, a trocadora/cobradora fazia de seu ofício algo tão sublime que deixava as pessoas a sua volta repletos de expectativas e confiantes de que o dia de trabalho que se iniciava seria melhor.

Após mais um dia de trabalho, Jô retornava ao seu lar. Eram 18h00 e ela já adormecera, afinal logo depois o aroma de café tomaria conta da Rua do Ouvidor novamente.

Corre Mariana, Corre

27 dez

Lembro-me muito bem da primeira vez que vi “Mariana”. Estava indo para o trabalho e esbarrei em uma moça que inspirou a crônica abaixo. Se o fim da história é verdadeiro ou não, acredito não importar. O fato é que depois de Mariana, senti uma grande vontade de escrever e assim nasceu a ideia de nosso blog.

Boa Leitura!

Corre Mariana, corre

Por Rogério Santana

Eram 9h10 da manhã, Mariana já estava dez minutos atrasada e ela sabia que tudo dependia daquele semáforo. Ou passava naquele instante, ou perderia o emprego. Não havia outra alternativa, afinal de contas já fora avisada por Júlia, a supervisora: Mariana, da próxima vez que você perder o horário, é melhor nem vir. Passe direto no departamento pessoal e pegue seu ordenado. Sim! Julia é uma carrasca em pele de cordeiro. Não se entendia, o porquê de tanto rancor, mas com a supervisora não havia papo. Mais um único atraso e Mariana perderia sua colocação. Não era nenhum emprego dos sonhos, mas era o que lhe ajudava a sustentar a família.

O dia não havia começado bem, mas como poderia ter algo positivo, para alguém que gastava duas horas para chegar ao trabalho, pois morava do outro lado da cidade. O princípio do fim foi perder o ônibus, foram apenas dois minutos de atraso, mas lá estava o coletivo dobrando a esquina e Mariana ficaria 30 minutos esperando a próxima condução. Sim! Para os pouco informados, há linhas de ônibus que demoraram horas para que haja um retorno (aviso aos patrões, supervisores e etc).

Após a longa espera, a impaciência que rondava sua expectativa pelas broncas e as duas horas sacolejando pelas ruas estreitas e avenidas mal-conservadas, Mariana chegava ao seu destino. Certo que estava dez minutos atrasada, mas o seu Olimpo, a sua meta estava a sua frente, bastava apenas esperar pacientemente o semáforo fechar para seguir em frente, passar pela catraca da empresa e enfim assumir o seu posto de trabalho. À mente vinham os gritos de Júlia, as desculpas que inventaria e milhares de outras preocupações.

As mãos tremiam, o suor descia de seu rosto como se tivesse percorrido o maior dos trajetos. Restavam apenas 20 metros para alcançar a sua vitória diária. Triste e melancólico destino. Júlia gritou e esperneou muito ao ver a funcionária… Estirada no chão. Em frente a sua linha de chegada, Mariana titubeou, não viu e cruelmente foi atropelada. O destino já foi comparado a um autor que gosta de pregar peças. Lá estava Mariana morta e estirada. O atropelador? Havia sido o mesmo ônibus que Mariana perdera inicialmente. Na corrida de volta se encontraram. Mariana morta e estirada. O ônibus parado e estático.